BRIGITE



Ninguém sabia nada sobre dona Susana a não ser que era muito rica e excêntrica, ou seja, ela tinha hábitos estranhos e um pouco diferentes dos do resto das pessoas. Quando uma pessoa é pobre, não é chamada de excêntrica: ela pode ser tida como louca, mal-educada, desligada ou qualquer outra coisa; mas quando se é rico, como a dona Susana, então fala-se em excentricidade.
Dona Susana pouco saía de seu quarto e, segundo contavam, vivia em companhia de uma filha ou afilhada — ninguém sabia ao certo — de nome Brigite.
Além de ficar a maior parte do tempo no quarto, dona Susana tinha outro hábito: só contratava para trabalhar em sua casa pessoas que já tivessem passado pelo manicômio, que é um hospital para doidos.
Se muita gente se admirava dela contratar ex-birutas para trabalhar em sua casa, outras apreciavam aquele gesto de boa vontade para com essas pessoas que dificilmente conseguiriam algum emprego.
As opiniões sobre dona Susana, apesar de poucas pessoas a terem visto, eram sempre assim: elogiosas de um lado e críticas de outro. Claro que mais críticas do que elogiosas.
Um dia, espalhou-se a notícia que dona Susana havia sido internada num hospício. Foi um auê! Os comentários foram os mais diversos e seus críticos achavam que só poderia ser esse o destino de uma mulher tão estranha. Afinal, conviver diariamente com loucos só poderia deixá-la louca também.
Porém, as pessoas que a elogiavam, condoeram-se com o fato e passaram a se preocupar com a filha ou afilhada, da qual ouviram falar, mas que ninguém jamais havia visto. Como poderia ela viver sozinha naquela casa, sem a presença de dona Susana? O jeito era uma comissão ir à casa dela e procurá-la para oferecer apoio e ajuda se necessária.
E formou-se uma comissão com os mais eminentes cidadãos da sociedade local a fim de fazer a visita.
Ao chegar à casa, a comissão foi informada por um empregado que Brigite estava no quarto e que não descia desde a internação de dona Susana.
Discute-se aqui, discute-se ali, resolveu-se que subiriam ao quarto para conversar com a jovem. Mas o empregado afirmou que isso não seria possível, pois Brigite se assustaria com tanta gente estranha entrando em seu quarto de uma vez.
Decidiu-se, assim, que apenas uma pessoa iria conversar com ela. E assim foi.
Chegando ao quarto, a visita não viu ninguém. O empregado disse, então, que Brigite devia estar embaixo da cama, já que era extremamente tímida.
A pobre visita, um respeitável industrial de cabelos brancos, não sabendo o que fazer diante de uma situação tão excêntrica, sentou-se na cama e começou a conversar com Brigite, informando-lhe a razão da visita. Mas de nada adiantou o falatório, pois a jovem não disse absolutamente nada, nem saiu de baixo da cama.
Não vendo esperanças de sucesso em sua conversa, o industrial voltou à sala e narrou à comissão o acontecido. Outro membro do grupo subiu, descendo após alguns minutos, sem obter qualquer resposta. E assim, uma por uma das visitas foi ao quarto de Brigite e voltou sem nada conseguir.
Finalmente, o último visitante subiu. Era um jovem que, tendo certa vez ouvido alguma coisa sobre a beleza dos olhos de Brigite, ficara encantado apenas de ouvir falar. Agora, tinha a oportunidade de conhecê-la e, quem sabe, conquistá-la. Com esse objetivo, ajoelhou-se aos pés da cama e começou a se declarar de forma apaixonada.
Não se passou muito tempo e a coberta da cama começou a mexer-se na barra e, após grande expectativa do jovem, apareceu a cabeça de Brigite, olhando-o com seus grandes e belos olhos castanhos.
O jovem, ao vê-la, levantou-se e saiu do quarto correndo, quase chorando.
Chegado à sala, ao vê-lo com aquela cara, todos perguntaram a razão de tão desconcertada ex-pressão.
A resposta foi a mais inesperada possível:
— Brigite é uma cachorrinha pequinês.

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