O MENINO MAU

 

O MENINO MAU

 

 

Gabriel nasceu em uma família católica e seu nome significa “Homem de Deus” ou “Força de Deus”. Este nome foi escolhido a dedo por seus pais. Na Bíblia, é o Arcanjo que anuncia as revelações de Deus, de maneira especial o nascimento de João Batista e de Jesus.

O menino nasceu cercado do mesmo amor que foi dado por sua família aos seus outros dois irmãos, o mais velho e uma menina que foi gestada junto com ele. Foi batizado junto com sua irmã gêmea no mesmo dia, ainda com poucos meses de vida.

Assim que aprendeu a ler, foi colocado por seus pais na catequese e em dois anos recebeu a Eucaristia pela primeira vez.

Quem o via, enxergava nele não apenas um menino lindo, mas também um menino de coração bom. Assim como seus irmãos, era muito educado e carinhoso e julgado por todos como uma bênção para seus pais.

Mas seus pais sabiam que, na intimidade do lar, Gabriel tinha um gênio forte e em muitas situações mostrava-se teimoso e desobediente. Isso não lhe tirava as muitas qualidades, mas preocupava seus pais.

Certo dia, sua mãe foi visitar um padre amigo, para se confessar, e Gabriel insistiu que queira ir junto. Ao chegarem à igreja, o Pe. Cornélio, que havia batizado o menino, recebeu-os com verdadeira e intensa alegria, feliz por receber a amiga de tantos anos e ver como o menino havia crescido.

Após a confissão da mãe, os três subiram para a casa paroquial a fim de tomarem um lanche juntos e conversarem. Já à mesa, Pe. Cornélio foi fazendo perguntas a Gabriel, para conhecer um pouco o íntimo do menino. Qual não foi sua surpresa quando o menino lhe disse:

— Eu tenho um coração mau!

Sem querer demonstrar sua surpresa, o Pe. Cornélio lhe perguntou:

— Por que você diz isso?

— É que eu escuto uma voz em minha cabeça que me manda desobedecer minha mãe.

Pe. Cornélio disse com todo carinho:

— Não, você não tem um coração mau! Só de olhar para você, qualquer um vê que teu coração é bom. Não é o teu coração que é mau, mas sim aquele que coloca isso em tua mente.

E começou a contar uma história:

— Antes de ser padre, eu fui professor e, um dia, com quase quarenta anos, recebi, da tia de uma professora amiga, um pequeno livreto contando a história de Nossa Senhora de Medjugórje, que, desde 1981, estaria aparecendo a alguns jovens. Eu fiquei encantado com aquela história. Sempre me atraíra a história das aparições em Fátima, Portugal, em 1917. Agora, Nossa Senhora, com o título de Rainha e Mensageira da Paz, estava aparecendo em Medjugórje, uma vila situada no município de Čitluk, no Sul da Bósnia e Herzegovina. Fiquei pensando comigo: “Será que se eu vivesse em 1917 e soubesse do que acontecia em Fátima não iria lá para comprovar o que estava acontecendo? Agora, Nossa Senhora estava aparecendo”. Eu não vou contar como consegui, mas em seis meses eu estava embarcando em uma peregrinação a Santuários Italianos e Medjugórje. Que experiência fantástica! Nunca imaginei que vivenciaria o espírito de oração como o fiz naquela minha primeira peregrinação!  Lembro-me perfeitamente bem de, em determinado dia, além de duas missas e de adoração, termos rezado em grupo 3 rosários completos e, antes de dormir, rezarmos mais um, com alegria e coração aberto a Deus.

Certo dia, desde a manhã, fiquei incomodado com uma ideia recorrente em minha cabeça dizendo-me para subir ao Monte Krizevac (ou Monte da Cruz), onde já havíamos ido em outro dia. Durante todo o dia, essa ideia martelava em minha cabeça e incomodei muito o nosso guia diversas vezes. Eu sentia que algo iria acontecer ao subir o monte. Será que teria uma visão de Nossa Senhora? Mas o que ocorreu foi bem diferente do esperado.

Por volta das 22:00 horas, com o céu nublado e uma tempestade se formando, o nosso guia decidiu que iríamos ao Krizevac. Do nosso grupo, apenas umas poucas pessoas foram, talvez umas seis ou sete.

Subimos com alegria e fé, levando guarda-chuvas e lanternas. Quando ainda estávamos no início da subida daquela montanha de pedra, caiu uma forte chuva que destruiu nossos guarda-chuvas. Continuamos a subir e, ao mesmo tempo, todas as nossas lanternas apagaram. Com fé, dissemos uns para os outros que se Satanás queria nos impedir de subir, ele não conseguiria fazê-lo. Nós subimos em meio à chuva a a escuridão, escorregando nas pedras, mas não desistindo.

Mas desde que as lanternas se apagaram, meu peito foi tomado por uma dor e angústia, e uma voz se fazia ouvir em minha mente: “Vá embora, volte para casa, abandone a igreja. Você nunca irá se salvar. Você vai para o inferno. A tua cultura é uma maldição. Você está perdido. Volta para a tua vida. Esqueça a igreja”. Mas não era com calma que essas palavras vinham à minha mente, mas com uma velocidade terrível, como em uma lavagem cerebral, sem me dar tempo de pensar.

Quando chegamos ao alto do Krizevac, a tempestade cessou e uma clareira se abriu no centro das nuvens e a luz da lua cheia mais brilhante que já vi desceu sobre nós. Fomos descendo a montanha e chegamos à pousada por voltas das quatro e trinta horas da manhã. Fui para o meu quarto, com aquela terrível voz interior me torturando. Essa voz me acompanhou todo o dia. Quando anoitecia, deixei a pousada e fui para a Igreja de São Tiago a fim de conversar com um dos padres que acompanhava a nossa peregrinação. Teriam de fazer algo para me ajudar.

Ao sair da pousada, um grupo de peregrinos, reunido no jardim e vendo-me com a Bíblia nas mãos, pediu-me que a abrisse e lhes desse uma palavra. Abri na Carta aos Filipenses, no capítulo 4, e li alguns versículos, dos quais recordo-me até hoje apenas do versículo 4: “Alegrai-vos no Senhor”. Deixei o grupo com essas palavras e dirigi-me à igreja, pensando: “Alegrai-vos nos Senhor? Eu estou triste! Voltei à igreja com alegria e agora estou triste. Quero voltar para casa. Não quero mais ficar aqui”.

Na igreja, vi ao longe, no presbitério, os dois padres de nossa peregrinação já paramentados e sentados junto a dezenas de outros padres. Eu teria de esperar o término da missa para conversar com um deles. Em Medjugórje, havia o hábito de rezar os Mistérios Gozosos e os Dolorosos do Terço antes da missa e, após, os Mistérios Gloriosos. O Papa São João Paulo II ainda não havia instituído os Mistérios Luminosos. Desanimado e triste, acompanhei os fiéis na oração, correndo as contas do Rosário com os dedos, mas sem orar de coração. Terminados os Mistérios Gozosos, algo aconteceu. Quando começaram os Mistérios Dolorosos, senti algo ser arrancado de meu peito, com tanta força, que caí de joelhos. Estava livre daquela voz maldita que me acompanhara durante todo o dia. Rezei os Mistérios Dolorosos com alegria no coração, participei da missa e, após, encontrei um de nossos diretores espirituais, o Pe. Antônio Dezan, de Araraquara (SP), e contei-lhe o que acontecera. Ele em disse: “É, o inimigo te pegou de jeito! O que ocorreu contigo foi uma obsessão”. Realmente, eu havia ficado obcecado com aquelas palavras em minha mente. Dali a pouco, outra voz se fez ouvir em minha mente: “Você não acreditava em Satanás. Mas ele existe e é assim que ele age. Coloca ideias em tua mente para te perder. Agora, cabe a você sempre testemunhar esta tua experiência para ajudar na salvação de teus irmãos e irmãs.”

Terminada sua narrativa, Pe. Cornélio voltou-se para o menino:

— Você entendeu o que acabei de contar?

Olhando-me com a meiguice que o caracterizava, Gabriel assentiu com a cabeça. Pe. Cornélio, então disse ao menino:

— Nunca se esqueça disso, meu menino: Deus te fez bom e teu coração é bom. Não deixe que o diabo te tente e te faça pensar que você é mau. Quando vierem estes pensamentos ou a tentação para você fazer algo que não deve, não pense que é você que está com vontade de fazer o errado. É o diabo te tentando, para ganhar a tua alma. Nesses momentos, peça ajuda ao teu Anjo-da-Guarda e a Nossa Senhora para não fazer o mal e o errado, mas apenas o bem. Vamos tentar?

Mais uma vez, Gabriel assentiu com a cabeça e seu rosto parecia iluminado, não com uma lâmpada, mas com a graça de Deus.

Terminada a conversa, os dois se despediram e Gabriel foi para casa. Olhando o menino afastar-se, Pe. Cornélio pensou consigo:

— Um menino tão bom e meigo e Satanás querendo que ele pense o contrário. Estarei sempre rezando por ti, menino. E que Deus te abençoe e proteja sempre!

E Pe. Cornélio fechou a porta.